Homem vendado tenta navegar num labirinto de dossiês e documentos do governo português, simbolizando a desorientação e a burocracia estatal.

O País do Improviso Planeado

Portugal, esse pequeno paraíso atlântico onde o improviso se tornou plano de governação, vive há décadas sob o signo da hesitação estratégica. Não por falta de diagnósticos — esses abundam em relatórios pagos a peso de ouro e esquecidos logo após a conferência de imprensa — mas porque ninguém quer, de facto, resolver nada. Resolver é comprometer, e comprometer é perder margem de manobra para a manobra seguinte. A governação portuguesa é um eterno jogo de futebol em que ninguém quer marcar golo: preferem queimar tempo até ao apito final. E enquanto isso, o país espera, resignado, mais um prolongamento — com penáltis marcados por comentadores que nunca chutaram uma bola na vida.

À Deriva com Mar à Vista

Governar com “mar à vista” passou de metáfora náutica a modelo de governação institucional. Cada medida é lançada como bóia salva-vidas: não para salvar ninguém, mas para flutuar uns dias nas capas dos jornais. Um subsídio aqui, um pacote de emergência ali, e umas quantas promessas pelo meio — embrulhadas em conferências de imprensa decoradas como se fossem lançamento de um novo iPhone. Tudo envolto numa névoa de comunicados de imprensa, tweets bem calculados e sorrisos ensaiados para os telejornais. O verdadeiro objetivo? Sobreviver à próxima sondagem, não à próxima geração. O país não tem estratégia; tem estratagema. E entre uma entrevista à TV e um jantar com lobbies, lá se vai adiando o futuro com toda a dignidade do mundo.

A Estratégia Nacional do Tapa-Buracos

Seria ofensivo dizer que Portugal não tem uma estratégia nacional. Tem, sim: chama-se “remendo reativo com efeito mediático de 48 horas”. Um hospital sem médicos? Cria-se um protocolo. Um aeroporto que nunca avança? Nomeia-se mais um grupo de trabalho. A habitação está pelas ruas da amargura? Impostos para os que não arrendam, rendas tabeladas para os que o fazem e prémio de legalização para quem ocupa — a nova política habitacional escrita a quatro mãos entre o governo e a ala juvenil da sociologia urbana. E assim se vai governando: com maquilhagem pública e boletins oficiais que mais parecem panfletos de autoajuda para estados falhados. Enquanto isso, os verdadeiros problemas — estruturais, sistémicos e de longa duração — vão ficando para outro executivo, outro ciclo político, outra legislatura… ou outro país qualquer que acolha os nossos jovens emigrados, esses sim, com planos e futuro.

Oposição de Espuma, Presidente de Fachada

Na teoria, a oposição deveria pressionar o governo a pensar a longo prazo. Na prática, limita-se a reagir com comunicados inflamados, sessões parlamentares ruidosas e indignação de curta duração. A oposição portuguesa é um polvo sem ventosas: tenta agarrar-se à agenda mediática com slogans reciclados e indignação plástica. Já o Presidente da República, esse curioso cruzamento entre um professor catedrático, jornalista e comentador político, passeia-se de praia em praia, aveludando as arestas do desastre com abraços simbólicos e discursos cheios de reticências. Cumpre a função constitucional de pairar acima da realidade, como um drone simpático que observa tudo mas não interfere em nada. O consenso nacional é este: ninguém se compromete com nada que dure mais que o seu mandato — e o país, esse, aguenta-se em modo piloto automático.

A Arte do Medo das Reformas

Fazer reformas profundas em Portugal é como tentar fazer uma operação ao coração com um cotonete. Toda a gente sabe que precisa de ser feita, mas ninguém quer ser o primeiro a cortar. Porque reformar significa desagradar. E desagradar significa perder votos, apoios, cargos e convites para os painéis televisivos. Reformar dá trabalho, obriga a pensar, a planear, a mexer em interesses instalados. Logo, o que se faz? Reforminhas cosméticas, com nomes pomposos: “Plano Estratégico Integrado para a Sustentabilidade da Coesão Transversal”. Tradução: um PDF com 120 páginas, nenhum impacto real, e uma foto sorridente do ministro da pasta. As reformas em Portugal têm datas de validade mais curtas que um iogurte em promoção.

A Máquina de Lavar Consciências

A culpa, claro, não é só dos políticos. Há toda uma indústria — jornalistas, comentadores, analistas, consultores, agências de comunicação — que vive da perpetuação da mediocridade. Quanto pior está o país, mais assuntos há para comentar. A indignação dá audiências, e as audiências vendem espaços publicitários. A informação passou a ser entretenimento, e os noticiários são novelas com protagonistas rotativos. O resultado? Uma sociedade anestesiada pelo espetáculo da desgraça, onde o ciclo da informação é mais importante do que o ciclo da execução política. Governa-se para o prime-time, não para o futuro. Os media, outrora guardiões da democracia, tornaram-se hoje cronistas do caos — e cúmplices de um sistema que se alimenta da própria falência.

Três Bancarrotas Depois…

E agora, a pergunta que ninguém faz com coragem: será assim tão difícil governar um país como Portugal? Um país com 10 milhões de habitantes, um clima ameno, sem guerras, sem catástrofes naturais cíclicas, com fundos europeus aos baldes, e uma população que, regra geral, até aceita tudo com um encolher de ombros. E no entanto… três bancarrotas. Crises na saúde, na educação, na habitação, na justiça, na segurança, nos transportes, na imigração. Ou estamos perante uma série de coincidências cósmicas particularmente infelizes, ou — pasme-se — somos governados por incompetentes ou por gente que simplesmente não se importa. O mais trágico? O povo continua a acreditar que o próximo ciclo será diferente. A cada quatro anos, como num jogo de azar, voltamos a colocar a ficha na mesma roleta.

Cena satírica dentro do Parlamento Português, onde políticos com cabeças de porco jogam à roleta num cenário de decadência, simbolizando corrupção, ganância e colapso democrático em Portugal.
Três bancarrotas depois: uma crítica visual à política portuguesa contemporânea, encenada num Parlamento transformado em casino.

Incompetência ou Cinismo?

Talvez seja hora de fazer o teste de escolha múltipla mais fácil da democracia portuguesa:

Porque falha Portugal há décadas?

A) Incompetência genuína
B) Total desrespeito pelo bem-estar coletivo
C) Captura do Estado por interesses privados e elites económicas
D) Todas as anteriores

A resposta, claro, está na ponta da língua de qualquer português minimamente atento. Mas mesmo sabendo o diagnóstico, continuamos a aceitar a receita: mais do mesmo, servido com um novo logotipo partidário e um slogan inspirador. “Agora é que vai ser!” – dizem eles. E nós? Nós sorrimos, pagamos e votamos neles outra vez. Talvez sejamos vítimas, mas também cúmplices. E o sistema sabe disso. Alimenta-se da nossa esperança cansada, da nossa raiva breve e da nossa memória seletiva.

Europa, esse Pai Severamente Benevolente

Se Portugal não está hoje transformado num Estado falhado ao estilo dos Balcãs é, em grande medida, graças à União Europeia. Não por mérito dos nossos governantes, mas porque Bruxelas exige aquilo que Lisboa ignora: contas. Se houve contenção, foi porque a UE ameaçou fechar a torneira. Se houve investimento, foi porque caiu do céu em forma de “fundos de coesão”. A Europa é aquele pai exigente que, apesar de tudo, continua a pagar as propinas do filho irresponsável — na esperança vã de que um dia ele acorde para a vida. Sim, muitas políticas europeias têm servido interesses que não são os nossos. Mas que ninguém duvide: sem o escrutínio europeu, já estaríamos a competir com a Moldávia para ver quem apaga primeiro a luz. Felizmente, a Europa tem-nos segurado. Tem-nos emprestado, fiscalizado, corrigido. Tem-nos dado planos, fundos e relatórios. E com tudo isso…

… conseguimos, por mérito próprio, continuar na cauda da Europa.

Parabéns a todos os envolvidos.

Sobreviver Sem Ser Governado

Não é complicado governar Portugal. Complicado é continuar a fingir que é. É difícil, sim, cortar nas mordomias dos que mandam, enfrentar os interesses instalados, resistir ao apelo fácil da medida popular e do soundbite eficaz. Mas governar com seriedade? Isso, meus caros, só exige três coisas raras na política portuguesa: competência, integridade e coragem.

Mas enquanto os partidos forem agências de emprego, enquanto a política for o recreio das juventudes partidárias e os comentadores forem os relações públicas do regime, nada mudará. E então ficamos assim: à espera que algo mude sem que ninguém queira mudar nada. E Portugal continua, sereno e decadente, a remar em círculos — sempre à espera da próxima tábua de salvação que, como sempre, virá cheia de promessas e vazia de rumo.

Brites Almeida
Brites Almeida
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