Foi na passada sexta-feira, dia 3 de Outubro de 2025, que o muito aguardado relatório factual sobre o grande apagão de Abril foi finalmente tornado público. E o que aprendemos, depois de meses de especulação, suspeitas e teorias rocambolescas?
Aprendemos que não foi um ataque cibernético russo. Não foi uma cegonha distraída. Não foi sabotagem estrangeira, falta de energia, nem um pico coletivo de carregamento de Teslas.
Foi, sim, algo que ninguém sabe exatamente o que foi.
Ficámos também a saber que o nosso muito elogiado sistema de backup, essa rede de segurança nacional para quando tudo falha, só arranca se tiver… eletricidade.
É como ter um pára-quedas de reserva que só dispara depois do impacto.
Descobrimos ainda que, afinal, as barragens, os painéis solares e as eólicas que vamos espalhando pelo país servem mais para absorver fundos europeus e alimentar infografias ministeriais do que propriamente para produzir energia.
Produzir cá dentro é bonito, mas sai caro.
Afinal, deixar a água correr pelas barragens, o sol bater nos painéis e o vento rodar turbinas tem custos incomportáveis para o erário. Nem a produzir a nossa própria eletricidade conseguimos ser competitivos.
É de tal forma deprimente que, ao lado disto, até o preço da gasolina parece bem regulado.
Sobretudo quando comparado com o esforço titânico de… comprar eletricidade mais barata a Espanha.
Sim, pertencemos a uma ilha elétrica chamada Península Ibérica, onde a corrente entra ao sabor de algoritmos ibéricos e prioridades espanholas.
Nada como depender energeticamente dos nuestros hermanos, esse povo irmão que sempre nos apoiou, respeitou e valorizou, desde Aljubarrota até ao último “ajuste de preços” decidido em Madrid.
E assim, entre picos de tensão, quedas de rede, relatórios adiados e responsabilidades em circuito aberto, vamos aprendendo o que realmente importa:
em Portugal, quando a luz se apaga… o país aguarda serenamente, desde que não seja dia de jogo do Benfica.
A tragédia do excesso
Chamem-lhe ironia do destino, castigo divino ou apenas mais um episódio da longa telenovela intitulada “Gestão de Infraestruturas à Portuguesa”: apagámo-nos por excesso de eletricidade.
Sim, leu bem.
Não foi falta de sol, nem de vento, nem de barragens a meio-gás.
Foi mesmo demasiada energia, um pico de tensão tão entusiasmado que fez cair tudo, como se o país tivesse tropeçado na própria extensão elétrica.
Num país onde “andar às escuras” é mais metáfora política do que realidade física, com contratos opacos, promessas que nunca iluminam e decisões energéticas tomadas à luz de interesses obscuros, é no mínimo poético que tenha sido o excesso de luz a mergulhar-nos no escuro.
Somos um povo tão habituado a cortes, adiamentos e remendos que a verdadeira surpresa foi termos falhado… por excesso de modernidade.
E depois há a Península Ibérica, essa ilha elétrica disfarçada de continente, com as suas gloriosas interligações de 3% com a Europa, o suficiente para fingir que pertencemos ao projeto europeu, mas não o bastante para evitar queimar os fusíveis sozinhos.
Estamos tecnicamente ligados à Europa, sim, mas com sinal fraco e sem password. Ligamo-nos… mas ficamos pendurados eternamente.
A ilusão de integração está lá, nos mapas, nas conferências, nas brochuras do PRR, mas basta um sol a mais ou um vento a menos para percebermos que estamos tão sós como antes. Só que agora com painéis solares a refletir o nosso ar de espanto.
Os profetas que sabiam de tudo… depois
No próprio dia, e antes que a luz voltasse, já havia uma multidão de especialistas de ocasião a garantir que “já sabiam”.
As timelines encheram‑se de certezas retroativas, teorias recicladas e indignações servidas com bica curta e manchetes falsas.
Era como se o país inteiro tivesse antecipado o apagão… mas tivesse escolhido, por civismo, não avisar ninguém.
Só faltou mesmo a análise “imparcial” de José Milhazes, a colocar a Rússia no meio do furacão, claro, sem dados, apenas suposições e aquela certeza de comentador de fim de tarde.
No fim, o que se sabe mesmo… é que ninguém previu nada de concreto.
Sabia‑se, isso sim, que o sistema era frágil, que havia riscos, que as interligações com França são tão eficazes como promessas de comício, e que as renováveis, quando descontroladas, se comportam como adolescentes em férias de Verão: entusiasmam-se, perdem o norte e levam tudo atrás.
Mas saber o dia, a hora e a tensão? Nem o Professor Zandinga se atrevia a tanto.
Missão emergência: carregar Start… sem energia
Em qualquer país normal, quando falta a luz, entram os sistemas de emergência.
Em Portugal, entra o sistema de fé.
Reza-se um Pai-Nosso, acende-se uma vela (literal e figurativamente), e espera-se que a coisa se resolva, por milagre ou por inércia.
Tecnicamente, só duas centrais tinham capacidade de black start, Castelo do Bode e Tapada do Outeiro.
Ambas reagiram em minutos, é justo reconhecê-lo. Palmas para elas.
Mas de pouco serviu, uma vez que a luz apenas regressou, aos poucos, lá para o fim do dia.

E o resto?
Um sketch de improviso nacional:
Hospitais com geradores que não arrancam desde o tempo do Cavaco; rádios locais a emitir com pilhas AA do comando da televisão; comunicações de emergência com falhas dignas de walkie-talkies de feira; telemóveis sem rede.
E o país inteiro, a redescobrir a magia ancestral da vela de cera, que, ironicamente, foi o artigo mais procurado nas primeiras horas do apagão.
Logo seguido de velas aromáticas (porque nem no caos perdemos o sentido estético).
O SIRESP, claro, fez aquilo que faz sempre: parou.
Não comunica, não coordena, não funciona.
Um sistema de emergência que falha sistematicamente, mas que continua ativo, possivelmente por superstição estatal.
Está para o Estado como o croquete está para a festa da aldeia: já ninguém sabe bem para que serve… mas está lá.
E depois há a pérola técnica que nos distingue dos países organizados: o sistema de backup nacional não arranca… sem eletricidade.
É como um desfibrilhador que precisa de Wi-Fi.
Um extintor que só funciona com código QR.
Ou um airbag que só dispara depois do embate.
Quem desenhou isto? Estagiários com formação avançada em PowerPoint? Técnicos formados no YouTube?
Gente brilhante. Fazem cursos? Ou é talento natural, como jogar à bola?
A brilhante ideia de importar o que já temos
Portugal produz energia.
Solar, eólica, hídrica.
Uma paleta de fontes verdes, limpas e carregadas de esperança europeia.
Há painéis solares a perder de vista, eólicas em todas as serras, barragens inauguradas duas vezes, uma para votos, outra para fotografias.
Mas depois… vem o twist ibérico: importamos eletricidade de Espanha.
Porquê? Porque sai mais barato.
Como?
Simples: estamos integrados no MIBEL, o Mercado Ibérico de Eletricidade, que compra energia ao preço da hora mais baixa.
Mesmo que estejamos a produzir energia em abundância, se os espanhóis estiverem a vender mais barato… compramos-lhes a eles.
Exportamos o nosso excedente, limpo, renovável, patriótico, e importamos eletricidade castelhana a preço de saldo.
Resultado?
As barragens cruzam os braços, as eólicas giram em vão, os painéis solares aquecem o ar… e o Excel sorri.
Chamam-lhe “eficiência de mercado”.
Eu chamo-lhe auto-sabotagem tarifária com sotaque de ministro e carimbo de Bruxelas.
É como ter uma horta no quintal e comprar pepinos industriais no supermercado, porque estão em promoção.
Ou fazer pão em casa, mas ir buscar carcaças congeladas a Badajoz.
Só que aqui, os custos ficam connosco, os lucros voam… e os relatórios dizem que está tudo bem.
Porque a energia foi comprada “ao melhor preço disponível”.
Ah pois foi.
Mas disponível… para quem?
A fatura que ninguém quer pagar
E quanto nos custou esta pausa energética?
Numa estimativa conservadora (sim, também as fazemos, entre um café e uma vela aromática), o país perdeu entre 25 e 50 GWh de energia úti, o suficiente para manter um país ligado durante horas… sem luz.
Com valores médios de perda económica por MWh a oscilar entre 5.000 e 15.000 euros, o prejuízo ronda os 125 a 750 milhões de euros.
Fábricas pararam, produção interrompeu-se, bens perecíveis perderam-se, linhas de montagem ficaram a meio, turnos foram desmarcados.
Computadores desligaram-se sem guardar ficheiros, reuniões Zoom congelaram, operações financeiras foram abortadas, senhas de serviço desapareceram no éter.
E em muitas casas viveu-se o verdadeiro horror moderno:
Gelados derretidos, boxes reiniciadas e routers em silêncio sepulcral.
Portugal voltou, durante horas, à Idade das Trevas… mas com smartphones carregados (até ao próximo blackout).
Mas o pior nem foi isso.
O pior foi a serenidade com que tudo foi aceite, como se fosse um dia ventoso ou uma greve de transportes a meio gás.
E foi precisamente essa serenidade que mereceu rasgados elogios da Senhora Dona Ursula, presidente da Comissão Europeia, que se confessou “profundamente impressionada” com o civismo exemplar do povo português. Sem protestos, sem buzinadelas, sem filas para a gasolina ou saques ao Pingo Doce. Apenas um silêncio digno, pontuado por velas aromáticas e jantares à luz do telemóvel. “Uma demonstração de maturidade democrática e europeísta”, afirmou, deixando no ar a hipótese de um prémio simbólico: talvez mais uma tranche do PRR, desta vez com um selo de ‘Cidadania Obediente’ para exibir com orgulho na fatura da luz.
No próximo apagão, porque virá, faremos o que sempre fazemos: esperar pacientemente pelo regresso da luz, elogiar a rapidez da resposta se desta vez só durar umas horas, e ouvir os responsáveis garantirem, com ar convicto, que o sistema afinal… funcionou.
Não vamos exigir culpados, nem soluções. Vamos dar palmadinhas nas costas uns aos outros, como quem sobreviveu heroicamente a mais uma prova nacional de resistência passiva.
E depois, voltamos ao normal, até ao próximo curto-circuito em cadeia.
No escuro também se governa
O relatório de Outubro veio sem culpados. Só com factos.
A verdadeira causa? Continua por apurar.
Os dados? Incompletos.
A responsabilidade? Circula como corrente alternada: ora é da REN, ora das renováveis, ora das centrais… ora dos outros.
O relatório final? Só em 2026.
Provavelmente entre dois feriados, num PDF de 248 páginas que ninguém vai ler.
Até lá, continuaremos a acreditar que a Rússia nos atacou, que o vento sopra demais, que os backups arrancam sozinhos e que o mercado sabe o que faz.
E no meio de toda esta trapalhada, houve até quem respirasse de alívio.
Afinal, o apagão calhou numa segunda-feira sem nada de relevante, nem jogos, nem festivais, nem reuniões de ministros a fingir que mandam.
Agora imaginemos se a luz tivesse ido abaixo no meio de um festival de verão com transmissão em direto, num jogo da Seleção contra a Espanha… ou durante a visita do Papa.
Seria o apocalipse.
E não por falta de fé, mas porque nem os milagres funcionam a baterias.
E quando vier o próximo apagão, porque virá, vamos fazer aquilo que fazemos sempre:
rir, culpar alguém… e continuar a importar eletricidade com desconto.




