O que seria de nós, portugueses, se Deus não tivesse, por uma qualquer distração celestial, derramado sobre este canto da Europa o seu stock inteiro de sol, mar e beleza costeira? Onde estaríamos se, em vez de praias douradas e clima de postal turístico, nos calhasse um território cinzento, húmido e gelado — tipo Noruega, mas com a nossa famosa tendência para o improviso e a eterna arte de empurrar com a barriga?
Imaginem Portugal sem a bênção do Atlântico a lamber-nos as margens nem esse sol obstinado que insiste em brilhar mesmo quando tudo o resto se desfaz. Um Portugal apenas com o que depende de nós: visão estratégica, competência política e civismo. Aí sim, meus caros, conheceríamos o verdadeiro inferno climático… e administrativo.
Sem o mar a esconder os esgotos da governação e o sol a maquilhar a inércia nacional, o país revelar-se-ia no seu estado cru: uma máquina bem oleada de desculpas, sempre pronta a evocar glórias passadas enquanto tropeça em cada presente. Um povo que se comove com epopeias marítimas, mas que já se habituou à deriva — desde que venha com vista panorâmica e uma imperial fresquinha.
Clima de Excelência, Resultados de Terceira
Deus, ou seja lá quem for o CEO das bênçãos naturais, brindou este retângulo à beira-mar com 300 dias de sol por ano, um Atlântico generoso e um solo fértil que até dá batatas sem pedir licença. E o que fazemos com isso? Exportamos talentos, importamos burocracia e insistimos num modelo económico à base de esplanadas e esperança.
Somos o único país onde se constrói mais em zonas de erosão costeira do que em parques industriais. Onde o mar está ali à mão, mas as quotas de pesca são negociadas em Bruxelas por alguém que confunde sardinha com salmão fumado. Onde o número de Tuk Tuks por metro quadrado rivaliza com o de promessas eleitorais não cumpridas.
A Nórdica Vergonha
Agora olhemos para cima — não para Deus, que já nos ignorou há décadas — mas para os nossos irmãos nórdicos. Os suecos, noruegueses, dinamarqueses e finlandeses vivem seis meses por ano num cenário digno de filme pós-apocalíptico: frio cortante, céu de chumbo, sol em part-time e um humor nacional algures entre o existencialismo e o consumo de antidepressivos.
E ainda assim… prosperam. Constroem economias robustas, redes sociais funcionais (não confundir com o Facebook), educação gratuita e de qualidade, justiça que não dorme — ou, pelo menos, que acorda de vez em quando — e uma cultura de cidadania que faz corar qualquer assembleia de condóminos em Portugal.
Por cá, continuamos na era da “sorte geográfica” e da “tragédia cultural”. Um país onde os recursos são abundantes mas o pensamento estratégico é mais raro do que um comboio a horas. Onde a floresta arde todos os verões, como se fosse uma tradição pagã, e no inverno as cheias invadem ruas, casas e promessas, apanhando sempre de surpresa um país que trata cada enxurrada como um fenómeno paranormal, como se a memória colectiva evaporasse ao primeiro raio de sol.
A culpa, claro, é dos políticos. Mas também é do vizinho que vota sempre no mesmo. E do outro que não vota porque “são todos iguais”. E da senhora do café que diz “isto está tudo feito” enquanto serve o terceiro galão da manhã a um reformado que trabalhou toda a vida para sustentar um sistema de pensões que cambaleia entre remendos orçamentais e promessas eleitorais recicladas.
E Se Fôssemos a Suíça do Sul?
Imaginem agora, por um breve momento de loucura, que os nossos governantes fossem modestamente competentes. Não falo de génios nem visionários, basta que não confundam contas públicas com contas pessoais. E que a população fosse, veja-se bem, participativa. Que exigisse prestação de contas. Que questionasse o “tacho”, o “ajuste direto”, o “estágio no gabinete do tio”.
Seríamos a Suíça do Sul? Muito provavelmente. Mas sem os relógios. E com a pontualidade da CP. Ainda assim, poderíamos ser um país com turismo sustentável, pesca valorizada, energia solar como ativo estratégico, universidades conectadas à economia real e uma cultura cívica que não fosse confundida com “mariquices de escandinavo”.
Mas Preferimos o Sol…
É que o Sol, esse, (ainda) não cobra impostos. A praia não exige reformas estruturais. O mar não precisa de reformas administrativas. Dá muito menos trabalho encher o Instagram de pores-do-sol em Sagres do que organizar um protesto por mais transparência no financiamento partidário.
E assim seguimos, bronzeados mas atrasados, sorridentes mas resignados, com o destino traçado por quem sabe que o calor amolece o espírito crítico e que o azul do céu serve bem de pano de fundo à ilusão.

Com Sol, Sem Norte
Portugal sem Sol e mar seria um país em greve à própria existência. Mas com Sol e mar continuamos a ser um país em férias permanentes da responsabilidade. Não é o clima que nos atrasa — é a incapacidade de o transformar em mais do que postais e promoções da Ryanair.
Enquanto continuarmos a confundir sorte com mérito e a delegar cidadania ao algoritmo do TikTok, o Sol continuará a brilhar… apenas sobre a mediocridade.
E talvez um dia, quando nos perguntarem por que motivo não somos como os países do norte, possamos responder com a nossa única verdade inabalável:
— Porque temos Sol. E isso, pelos vistos, chega para tudo.




