Comecemos esta incursão histórica e financeira com uma pergunta retórica e incómoda: alguém já se deu ao trabalho de contar as barras de ouro que temos nas nossas reservas? Aposto que não, pois, sendo portugueses, temos coisas muito mais urgentes com que nos preocupar, como as novelas da noite ou as intrigas futebolísticas que tão bem nos definem enquanto povo. Mas a verdade é que, e isto talvez seja surpresa para muitos, grande parte do nosso querido e suado ouro nacional repousa tranquilamente… em Londres. Sim, essa mesma Londres que tão bem conhecemos por, no passado, ter levado o que era nosso com a mesma elegância cavalheiresca com que se tira um doce a uma criança.
Onde Está Mais de Metade do Nosso Ouro?
Pois bem, é uma realidade mais bizarra do que a própria ficção: Portugal possui uma quantidade generosa de ouro, mais precisamente, 383 toneladas do metal precioso, mas pasme-se, mais de metade desse ouro, cerca de 200 toneladas, repousa silenciosamente em cofres ingleses. Confesso que é difícil não soltar uma gargalhada amarga perante tamanha ironia. Logo em Londres? Logo ali, na casa daqueles senhores que já demonstraram repetidamente um particular apreço pelo que é nosso?
Agora façamos a conta que realmente dói: 200 toneladas de ouro, devidamente encaixotadas em Londres, valem hoje cerca de 20 mil milhões de euros — sim, leste bem, vinte mil milhões, com todos os zeros e o brilho incluído. Estamos a falar de um “depósito de amizade” que daria para construir um par de hospitais decentes, recuperar meia dúzia de escolas que ainda funcionam em contentores, e talvez até financiar um ministério inteiro — dos que ainda fingem funcionar. Mas não. Está tudo estacionado na City londrina, a render… paz de espírito. E uma fatura anual de custódia. Muito britânica, claro.
Estamos então, com típica humildade lusitana, a guardar as nossas riquezas sob a protecção dos britânicos, cujos currículos históricos têm uma relação tão peculiar com a palavra “apropriação”. É caso para perguntar se, além do tradicional bacalhau importado, decidimos agora importar também uma boa dose de ingenuidade diplomática.
O Ouro Ainda Lá Está, Certo?
Mas será que as barras douradas que dizem “Made in Portugal” ainda estão realmente lá? Alguém em Portugal já viu, tocou ou cheirou esse metal precioso desde que lá foi depositado? Temos fotografias, selfies ou pelo menos um postal de Londres com uma nota tranquilizadora: “Saudações britânicas, o vosso ouro está óptimo!”? Não, claro que não. Em Portugal preferimos confiar, porque desconfiar dá demasiado trabalho. Afinal, é Londres, caramba. O que poderia correr mal?
O Reino Unido ainda é visto em muitos círculos políticos como um farol de credibilidade e segurança. Afinal, não é Londres um grande centro financeiro mundial? Não estão ali os especialistas em proteger aquilo que é alheio com um zelo quase paternal? Sejamos realistas, talvez confiar nas habilidades financeiras inglesas seja como confiar no lobo para proteger as ovelhas.
Claro, alguém poderia argumentar que trazer esse ouro para casa implicaria custos elevados. Custos logísticos, custos de segurança, custos disto e daquilo. E claro, estando o ouro fora de casa, não somos nós que temos de limpar o pó das barras douradas. Sem contar que um cofre em Lisboa daria muito nas vistas e poderia ser demasiado apetitoso para ladrões. Melhor mesmo deixá-lo nas mãos daqueles que nunca, jamais nos traíram ou traíram alguém (perdoem-me a pausa para rir).
E depois há essa nota de rodapé deliciosa, quase poética, que é o custo anual da custódia do nosso ouro em Londres. Uns meros 5 milhões de euros por ano. Uma ninharia, convenhamos. Para um país tão rico como Portugal, com escolas em contentores, hospitais em ruptura e uma carga fiscal tão leve como a consciência de um banqueiro, que importância tem este pequeno detalhe orçamental?
Confiamos Tanto Assim Nos Ingleses?
Em 1807, quando as tropas napoleónicas decidiram “fazer-nos uma visita” pouco amigável, a família real portuguesa fugiu apressadamente, levando consigo uma boa parte das riquezas do reino para o Brasil. No entanto, e aqui está o pormenor fascinante, o ouro português não foi todo resgatado pelas nossas autoridades. Uma parte significativa dele foi cuidadosamente “guardada“ pelos “amigos” britânicos. Esta foi, aparentemente, a primeira ação dos nossos aliados em “auxílio” durante as invasões napoleónicas: levar o nosso ouro para Londres. Com uma eficácia impressionante, as tropas britânicas asseguraram que cerca de 80 toneladas de ouro que pertenciam a Portugal seguissem diretamente para o Reino Unido, onde estariam “seguras”.

Se não foi daí que nasceu a expressão bem portuguesa ‘Entregar o ouro ao bandido’, então foi uma coincidência demasiado perfeita para não a eternizarmos com orgulho ferido e carteira vazia.
Ora, façamos contas rápidas. Esse ouro, que à época se avaliava em 20 milhões de libras, equivaleria hoje a cerca de €7,95–€8,0 mil milhões — assumindo as famigeradas 80 toneladas e a cotação spot do ouro a rondar €3.09–€3.10 por onça (Setembro de 2025). Ou seja: um pequeno cofre de Londres com o valor de meio orçamento de um ministério inteiro. E, claro, esse “depósito de amizade” nunca nos foi devolvido… nem algum governo se lembrou de o exigir de volta.
E Se o Ouro Fosse Repatriado?
Se o ouro regressasse, como seria? Imaginem só o desfile triunfal pelas ruas de Lisboa, com carroças blindadas a transportar o metal reluzente, ao som do hino nacional. Talvez inaugurássemos até um novo feriado: o “Dia da Repatriação do Ouro Nacional”. Haveria discursos emocionados, lágrimas patrióticas e, quem sabe, até mais um monumento a juntar aos tantos que nunca construímos.
Mas não sejamos demasiado optimistas, pois somos portugueses e sabemos que, por cá, as coisas tendem a demorar. A repatriação levaria anos — talvez uma geração inteira — entre a criação de uma Comissão Parlamentar para “estudo aprofundado e transversal do processo de transferência de ativos estratégicos” e uma série de debates televisivos conduzidos por “jornalistas“ em modo dramático, com especialistas convidados a falar não sobre logística ou soberania, mas sobre a gravidade diplomática de tal acto. O debate ganharia contornos existenciais: seria patriótico trazer o ouro? Ou seria um gesto hostil, quase bélico, digno de romper séculos de amizade forjada a chá e bolachas? Afinal, repatriar o ouro poderia ser visto como uma afronta ao nosso mais antigo aliado. Não queremos, de forma alguma, enviar “sinais de desconfiança” aos britânicos, esses mesmos que, pela sua histórica sensibilidade diplomática, nunca nos roubaram (uma sílaba sequer): nem um palmo de território africano — lembremos daquele memorável Ultimato de Salisbury de 1890, onde alegremente nos exigiram retirar das regiões que há séculos reivindicávamos em África. Ou que jamais nos deixaram a ver navios, seja financiando piratas que pilharam navios portugueses, ou virando os olhos para piratas que atacavam compatriotas aos gritos de “justiça anglofona”. Impressionante como historicamente, sempre fizeram questão de respeitar tudo o que fosse nosso — com tanta verdade e elegância que até parece tratamento real.
Uma Estranha Nostalgia Pelas Perdas Passadas
Talvez, no fundo, mantenhamos o ouro longe por uma questão de identidade nacional. Há povos que celebram vitórias; nós, com a elegância trágica de um país habituado à perda, preferimos embalar derrotas com ternura e convertê-las em património imaterial. O ouro está ausente? Perfeito. É mais um símbolo para juntar ao espólio emocional de impérios afundados, tratados humilhantes e glórias passadas. Afinal, que seria de nós se não tivéssemos algo de que nos queixar com ar sofrido, entre dois goles de café e um fado bem arrastado?
Confiar cegamente nos ingleses, os mesmos que nos aplicaram o Ultimato de 1890 com a mesma naturalidade com que servem um cálice de vinho do Porto — nosso, claro — não é só ingenuidade diplomática — é quase liturgia nacional. Uma forma subtil de alimentar o nosso ritual melancólico, de poder suspirar de tempos a tempos: “Ai, que nos levaram tudo outra vez…” Mas desta vez com elegância, com contrato e fatura de custódia incluída. Porque há algo profundamente português em perder — e pagar para que a perda seja bem organizada.
E o ouro, coitado, lá continua, silencioso nos cofres de Londres, a servir de espelho para essa nossa vocação para a saudade com recibo de custódia. Talvez nem o queiramos de volta. Porque se regressasse, lá se ia o pretexto. E quem seríamos nós sem a beleza da perda? Sem o drama da pilhagem alheia? Sem a nossa crónica nacional de coisas que já foram nossas? O ouro, em última análise, é só mais um capítulo — brilhante, claro — da nossa epopeia em verso triste.
E no Final, uma Pergunta Que Fica
Assim sendo, resta-nos uma última pergunta desconfortável, dessas que não se fazem em jantares familiares, pois estragam o ambiente: até quando continuaremos a fingir que esta situação é perfeitamente normal? Até quando preferiremos fechar os olhos ao óbvio absurdo desta confiança cega num país que já nos demonstrou vezes sem conta que, perante riquezas alheias, o lema é “olhos que não vêem, ouro que desaparece”?
Entretanto, no mundo real — aquele que não passa nos telejornais das oito — as grandes potências europeias, Reino Unido incluído, preparam-se discretamente para tempos de conflito. É o ouro, vejam bem, que volta a ser protagonista nos bastidores das “democracias desenvolvidas”. Assiste-se já a um assambarcamento silencioso, mas meticuloso, do metal precioso por parte de quem sabe que os discursos sobre paz e estabilidade são óptimos para a imprensa, mas não protegem interesses estratégicos. E não será de espantar se, um dia destes, os nossos sempre generosos aliados britânicos decidirem que aquele ouro português guardado com tanto zelo… pode e deve ser usado em nome de um bem maior. Digamos, algo altruísta, como “defender a Europa”, “preservar a ordem mundial” ou, quem sabe, “garantir a liberdade dos povos” — tudo causas muito nobres, especialmente quando financiadas com património dos outros.
Talvez nunca cheguemos a repatriar o nosso ouro. Talvez o melhor mesmo seja não pensar muito nisso. Afinal, estamos em Portugal. E aqui, o importante não é ter o ouro em mãos. O importante é acreditar que, algures em Londres, alguém cuida dele com carinho — e não há nada mais português do que acreditar em histórias felizes, mesmo quando são escritas por quem já nos roubou o final.




